Porto Maravilha descuidado da paisagem

Projeto de Norman Foster para o Pátio da Marítima

Roberto Anderson M. Magalhães

Em Londres, antes que ocorresse a reurbanização de Docklands, foram feitos estudos que buscaram definir as linhas mestras de aproveitamento da área, com a indicação de espaços edificáveis e estudos de massa das futuras construções. Em 1982 a London Docklands Development Corporation– LDDC encomendou este estudo aos urbanistas Gordon Cullen e David Gosling. O trabalho apresentado buscou valorizar os eixos visuais de destaque na área da Ilha dos Cães e a manutenção de pré-existências, como os espelhos d’água dos diques. Tais propostas não foram muito consideradas no projeto quando o mesmo finalmente foi executado, resultando em perda de grandes possibilidades paisagísticas e traçados urbanos presos a um formalismo ultrapassado.

No Rio de Janeiro o projeto de reurbanização da Área Portuária, atualmente batizado de Porto Maravilha, preocupou-se apenas com a definição de vias de circulação e índices construtivos. Não há um estudo que identifique as linhas de dominância na paisagem da área, nem de quais visadas deveriam ser preservadas ou valorizadas. Muito menos um estudo que busque preservar elementos característicos de qualquer área portuária – seus armazéns – e que poderiam se tornar um diferencial estético do projeto.

Ao sabor do preenchimento de frios índices de aproveitamento dos terrenos e das vicissitudes dos capitais que se constituem para o seu desenvolvimento, o Porto Maravilha está sob a ameaça de produzir um monstrengo que bloqueie a visibilidade das elevações do relevo carioca e faça um contraponto danoso às áreas de preservação existentes junto às encostas.

Outro problema que também pode arruinar o projeto é o apressado convite a arquitetos estelares, que parecem enviar seus projetos por fax, sem sequer conhecerem o sítio em que serão implantados. Assim é o caso do recentemente anunciado projeto do arquiteto inglês Norman Foster para o pátio da marítima, também na Área Portuária: dois troncos de pirâmide invertidos erguidos junto à linha do litoral que bloqueiam completamente a visão de toda a cidade que se desenvolve por trás dos mesmos. Na falta de estudos que garantam a preservação da paisagem da Região Portuária e a escolha das melhores localizações para os futuros empreendimentos, corre-se o risco de destruição de uma das últimas esperanças de um bairro diferenciado na cidade, resultando em algo bem mais próximo da imagem da Barra da Tijuca do que seria de se desejar.

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Sobre Roberto Anderson Magalhães

arquiteto e urbanista
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2 respostas para Porto Maravilha descuidado da paisagem

  1. Carla Crocchi disse:

    Concordo plenamente Roberto.Lamentavelmente a arquitetura do Porto Maravilha está vindo como colcha de retalhos. Mais uma vez, como já havia comentado, os novos arquitetos brasileiros, principalmente os mais novos, não tem nenhuma sensibilidade quanto à integração com a natureza existente, talvez pela falta de percepção da natureza, talvez pela falta da visão espacial desde a retirada da geometria descritiva. Por outro lado, como se trata de obra de “porto” a sensação de que tenho é que querem passar para quem chega é que nós brasileiros não somos capazes de nada exceto jogar futebol e sambar. Afinal, onde existe atualmente nomes de arquitetos brasileiros de pouca idade capazes de impressionar. Nosso jovens são da arquitetura do consumo e não da arquitetura do sentimento, muito ao contrario, a arquitetura consumista de fato consome totalmente a paisagem natural, seus limites, o contorno de seus morros e repetindo, sua linha de horizonte.

  2. Mateus Pinto disse:

    Eu reparei exatamente isso quando conheci a região de Puerto Madero, em Buenos Aires. Toda a região foi revitalizada e enormes edifícios de luxo foram construídos. Resultado: a cidade perdeu toda a sua vista para o litoral do Rio da Prata, que tem um visual incrível, assim como aqui no Rio de Janeiro.
    Além do mais, a questão do público-alvo para a região é um problema também muito sério. Temo que uma valorização excessiva gere a concentração de classes mais altas (edifícios comerciais de alto padrão, residências de luxo, lojas e centros culturais) e as classes médias e baixas não possam usufruir de forma democrática a zona portuária, gerando um possível esvaziamento. Em Puerto Madero, a região fica totalmente vazia durante a semana e nos finais de semana o movimento não é tão intenso, pois a área não se tornou um atrativo para os portenhos, mas sim para os turistas.

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